Quando uma família brasileira chega à Itália e começa a conhecer o funcionamento da escola italiana, é comum se deparar com algumas diferenças que não esperava encontrar. Uma delas é o ensino religioso na Itália.
A primeira coisa que chama a atenção é o nome da disciplina: Insegnamento della Religione Cattolica, ou seja, Ensino da Religião Católica, conhecido pela sigla IRC. Mas será que isso significa que a criança passa a aula inteira aprendendo apenas sobre catolicismo? A resposta é um pouco mais complexa.
Meu filho estuda na Itália e, quando tivemos que escolher se ele faria ou não essa disciplina, decidimos pelo ensino religioso. Somos católicos, mas essa não foi a única razão da nossa escolha. Eu também enxerguei nessa aula uma oportunidade para ele conhecer outras culturas e religiões, ampliar o vocabulário em italiano e participar de algumas atividades e passeios realizados pela escola.
Neste artigo, vou explicar como funciona o ensino religioso na Itália, o que as crianças podem aprender nessas aulas e como funciona a opção para as famílias que preferem que seus filhos não participem.
Como funciona o ensino religioso na Itália?
Nas escolas italianas, o ensino religioso católico é uma disciplina prevista no sistema escolar, mas sua participação é facultativa.
Isso significa que, no momento da matrícula, os pais podem escolher se o filho vai frequentar ou não as aulas de IRC. No ensino fundamental, por exemplo, o Ministério da Educação italiano informa que os alunos que optam por participar têm uma aula semanal de religião católica.
Portanto, existe uma diferença importante entre o que é a disciplina e a obrigatoriedade de frequentá-la. O ensino religioso na Itália existe dentro da escola pública, mas a família não é obrigada a escolher essa opção.
Essa foi uma das primeiras coisas que precisei entender quando meu filho começou a estudar na Itália.
Mas a aula fala somente sobre religião católica?
Essa talvez seja a maior dúvida de muitos pais brasileiros.
O nome da disciplina realmente é Religião Católica, e o catolicismo ocupa um lugar importante no conteúdo. Afinal, estamos falando de uma disciplina vinculada à tradição católica e regulamentada pelos acordos entre o Estado italiano e a Igreja Católica.
Porém, na prática, o conteúdo não precisa ficar restrito a decorar orações ou aprender exclusivamente sobre os ensinamentos católicos. Meu filho, por exemplo, não aprendeu nada disso. Mas já estudou na escola sobre islamismo, judaísmo e budismo.
E eu achei isso muito interessante.
Para uma criança que está crescendo na Itália, conhecer diferentes religiões também significa conhecer melhor as pessoas que vivem ao seu redor. A escola pode apresentar diferentes tradições religiosas, suas características, seus símbolos, suas festas e sua presença na história e na sociedade.
Por isso, considero importante fazer uma distinção: o nome oficial é Ensino da Religião Católica, mas isso não significa que outras religiões estejam necessariamente ausentes das aulas.
Ensino religioso também pode envolver história e cultura
Outra coisa que percebi durante a experiência escolar do meu filho é que religião e história acabam caminhando juntas em muitos momentos. Isso faz bastante sentido quando pensamos na própria formação cultural da Itália.
Igrejas, obras de arte, festas tradicionais, arquitetura, literatura, costumes e acontecimentos históricos estão profundamente relacionados à história do cristianismo e, especialmente, do catolicismo no país. Por isso, uma aula sobre religião também pode se transformar em uma oportunidade para compreender melhor a cultura italiana.
O próprio currículo do IRC considera a contribuição do cristianismo e do catolicismo para o patrimônio histórico, cultural e civil da Itália. E isso pode ser especialmente interessante para uma criança brasileira que está crescendo em outro país.
Ela não está apenas aprendendo uma nova língua. Está também tentando entender referências culturais que fazem parte da vida cotidiana.
O respeito às diferentes religiões
Uma das coisas que mais me interessou no ensino religioso na Itália foi justamente a possibilidade de meu filho conhecer diferentes tradições. Quando uma criança aprende que existem pessoas que seguem religiões diferentes da sua, ela começa a perceber que o mundo é muito maior do que aquilo que conhece dentro de casa.
Isso não significa que a criança precise mudar suas crenças. No nosso caso, por exemplo, somos católicos e continuamos ensinando nossos valores dentro da família.
Ao mesmo tempo, considero importante que meu filho saiba que existem pessoas que pensam e acreditam de maneiras diferentes. Conhecer não significa necessariamente concordar. Significa compreender que as diferenças existem e aprender a respeitá-las.
Para uma criança que vive em um país multicultural como a Itália, acredito que esse aprendizado pode ser bastante importante.
E quem não quer que o filho faça religião?
Essa é outra informação importante para quem está chegando à Itália. A participação no IRC é facultativa. A família pode optar por não aderir ao ensino religioso católico no momento da matrícula.
Mas isso não significa necessariamente que a criança ficará simplesmente sem atividade enquanto os outros alunos estão na aula. Existem as chamadas attività alternative all’insegnamento della religione cattolica, ou atividades alternativas ao ensino da religião católica.
Entre as possibilidades previstas estão atividades didáticas e formativas, estudo ou pesquisa individual com acompanhamento de um professor e, dependendo da etapa escolar e da organização da escola, outras opções. Também existe a possibilidade de não permanecer na escola durante aquele horário, conforme as condições previstas.
Ou seja, não participar da religião não significa que a criança esteja obrigada a ficar sem nenhuma atividade. A escola organiza as opções de acordo com as regras e sua própria oferta formativa.
É preciso escolher todos os anos?
A escolha também tem uma particularidade que vale a pena conhecer.
De acordo com as orientações do Ministério da Educação italiano, a opção de participar ou não do IRC é feita no momento da matrícula e, em regra, permanece válida durante o ciclo de estudos, podendo ser modificada para o ano seguinte dentro do período de inscrições.
Por isso, é importante que os pais prestem atenção às informações fornecidas pela escola no momento da matrícula.
Se você acabou de chegar à Itália e ainda está se familiarizando com o sistema escolar, não tenha vergonha de perguntar. Muitas regras são diferentes daquelas que conhecemos no Brasil.
Afinal, vale a pena escolher o ensino religioso?
Não existe uma resposta que sirva para todas as famílias. A decisão depende das crenças, dos valores e também das expectativas dos pais em relação à educação dos filhos.
No nosso caso, escolhemos participar porque somos católicos, mas também porque achei interessante que meu filho pudesse conhecer outras religiões e culturas, desenvolver seu vocabulário em italiano e participar das experiências escolares relacionadas à disciplina.
Para nós, acabou sendo mais uma oportunidade de aprendizagem. E acredito que esse seja o ponto mais importante: antes de escolher, procure entender o que é o ensino religioso na Itália, quais são os conteúdos trabalhados e quais são as alternativas oferecidas pela escola.
Assim, você poderá tomar uma decisão consciente para a sua família.
Você deixaria seu filho participar do ensino religioso na Itália?
Mesmo que sua família não seja católica, você consideraria interessante que ele conhecesse outras religiões e culturas dentro da escola?
Se você é mãe brasileira vivendo na Itália e quer acompanhar mais conteúdos sobre escola italiana, adaptação das crianças, língua portuguesa e educação dos filhos no exterior, acompanhe o nosso blog.
Eu sou a Mamãe Noob e este é um blog sem julgamentos.

